Tribunal de Justiça do Estado de Minas Gerais

Comunidade quilombola recebe escuta ativa do TJMG e parceiros

Ação da 3ª Vice escutou demandas da Fazenda Santa Cruz, no Vale do Jequitinhonha


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Essa passarela, a principal via de acesso à comunidade, foi destruída pelas águas do rio Jequitinhonha em 2024 (Crédito: Cecília Pederzoli / TJMG)

Na região da cidade do Serro nasce o rio Jequitinhonha, no vale mineiro que leva seu nome. Durante o caminho rumo ao mar, ele corta o território da Fazenda Santa Cruz, comunidade quilombola incrustada na Serra do Espinhaço, na interseção dos municípios de Datas, Diamantina e Serro.

Em tempos de cheia, as águas do rio transbordam e ocupam as vargens, ganhando força e velocidade. Os quilombolas que vivem na Fazenda Santa Cruz ficam então ilhados, pois a passarela que os liga à principal via de acesso à localidade foi destruída pela correnteza há cerca de dois anos.

Uma nova ponte para fazer essa ligação interrompida é uma das urgências da comunidade. O pedido para a realização da obra foi levado a representantes do Poder Público que estiveram na Fazenda Santa Cruz para uma ação de cidadania e escuta ativa.

A atividade foi realizada no dia 20/10 pela 3ª Vice-Presidência do Tribunal de Justiça de Minas Gerais (TJMG), por meio do Centro Judiciário de Solução de Conflitos e Cidadania para demandas de Direito relativas a indígenas, quilombolas e demais povos e comunidades tradicionais da Justiça de 1º e 2º Graus (Cejusc Povos e Comunidades Tradicionais) e pelos Cejuscs das Comarcas de Diamantina e do Serro, com apoio de parceiros.

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Ao centro, a juíza Letícia Machado Vilhena Dias (esq.) e a 3ª vice-presidente do TJMG, desembargadora Shirley Fenzi Bertão (Crédito: Cecília Pederzoli / TJMG)

Demandas locais

Durante a escuta ativa, os quilombolas explicaram que, sem a passarela, a travessia para a outra margem – por onde escoam produtos da comunidade e de onde partem moradores para estudar, buscar saúde e realizar outras atividades – é improvisada por uma canoa, comprada por eles próprios. Outra opção é cortar a região a pé, a fim de chegar em distritos vizinhos.

“A passarela foi embora com o rio antes de ser inaugurada, porque fizeram a obra sem ouvir quem mora aqui. Quando o rio enche, a água fica muito alta! Misericórdia, eu não tenho coragem de entrar na canoa, e é o maior sofrimento dentro dessa comunidade”, explicou a moradora Vera Lúcia da Silva Santos, de 58 anos, que, assim como seus antepassados, vive na Fazenda Santa Cruz desde que nasceu.

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A moradora Vera Lúcia da Silva Santos, de 58 anos, assim como seus antepassados, vive na Fazenda Santa Cruz desde que nasceu (Crédito: Cecília Pederzoli / TJMG)

O convite para que todos se sentissem à vontade para falar os problemas enfrentados foi feito pela 3ª vice-presidente do TJMG, desembargadora Shirley Fenzi Bertão, ainda no início dos trabalhos. A magistrada, que é superintendente de Tratamento Adequado dos Conflitos de Interesses (Sutrac), explicou aos quilombolas, que lotaram a associação comunitária, a dinâmica do trabalho realizado pelo Cejusc Povos e Comunidades Tradicionais:

“Agradecemos por nos darem permissão para estarmos no território de vocês. Saímos dos nossos gabinetes para vir até aqui com o objetivo de colher as demandas da comunidade e acionar as redes e os parceiros, para depois retornarmos já com algumas respostas.”
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As demandas apresentadas pelos quilombolas da Fazenda Santa Cruz e os encaminhamentos dados a elas foram registrados em ata (Crédito: Cecília Pederzoli / TJMG)

Dívida histórica

Mais que uma reunião, a iniciativa foi um encontro com uma comunidade que carrega em si a tradicionalidade e a ancestralidade e que habita um território sagrado, como explicou o juiz auxiliar da 3ª Vice-Presidência, Matheus Moura Matias Miranda: “Estamos aqui como visitantes para conhecer, ouvir e, quem sabe, contribuir; eu digo ‘quem sabe contribuir’ porque, quando vamos para um território como esse, ganhamos muito mais do que somos capazes de oferecer.”

No começo de sua fala, o magistrado conclamou todos os parceiros a atuarem de maneira coletiva em prol dos povos tradicionais: “Todo mundo que está aqui e não é quilombola tem uma dívida histórica grande, talvez impagável, com essas pessoas”. Ele aproveitou para pedir desculpas aos moradores pela história do Brasil, atravessada pela injustiça:

“O Judiciário reconhece essa dívida com todos aqueles corpos e mentes que foram escravizados, dominados, colonizados, explorados sexualmente e mentalmente; que não tinham direito de viver em liberdade, que não podiam escolher o que fazer na vida, pois lhes era imposto um modo de viver do branco colonizador. É preciso lembrar essa história, mas é hora de pensar um futuro melhor.”
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No início da ação, o juiz Matheus Moura Matias Miranda (centro) conclamou todos os parceiros a atuarem de maneira coletiva em prol dos povos tradicionais (Crédito: Cecília Pederzoli / TJMG)

Dever legal

Destacando que o encontro era um desdobramento da ação realizada no Fórum Joaquim Felício, da Comarca de Diamantina, há cerca de um ano, a juíza coordenadora do Cejusc da Comarca, Letícia Machado Vilhena Dias, ressaltou que a luta pelo direito é constante e que, na condição de magistrada e, portanto, de servidora pública, estava ali para cumprir o dever principal de garantir direitos: “Estamos aqui cumprindo nosso dever legal.”

Também presente, o juiz José Francisco Tudéia Junior, da Comarca do Serro, expressou sua expectativa de que o encontro pudesse ser um canal para compreender melhor as necessidades da comunidade e ampliar a articulação entre órgãos públicos, propiciando mais cidadania aos povos quilombolas.

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Moradores da comunidade quilombola Fazenda Santa Cruz lotaram o espaço onde ocorreu a escuta ativa (Crédito: Cecília Pederzoli / TJMG)

Dignidade de vida

Na Fazenda Santa Cruz existem 90 casas, com média de três residentes em cada uma. “Uma das nossas principais pautas é acabar com a invisibilização: queremos ser vistos pelo Poder Público. Somos invisíveis; as pessoas não nos ouvem. Queremos também a solução para demandas que são de dignidade de vida: acessibilidade, saúde, educação”, resumiu a líder comunitária Jordany Kelly Silva.

Além de relatar problemas relacionados à infraestrutura – como a necessidade de passarela, pontes e de manutenção em estradas –, os moradores apontaram falhas no fornecimento de energia; entraves no acesso à saúde, como a falta de equipamentos e espaço adequados para atendimentos médicos; e dificuldades relacionadas ao ensino dentro dos territórios.

Foi relatado que a Fazenda Santa Cruz enfrenta barreiras para acessar determinados serviços públicos por ter seu território inserido em três municípios distintos – Datas, Diamantina e Serro. Isso ocorre porque a delimitação territorial se baseou em vínculos de ancestralidade, laços de parentesco e uso tradicional do espaço, e não em divisões político-administrativas criadas pelo Estado séculos após o surgimento do quilombo.

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O encontro reuniu representantes do Judiciário e de outros órgãos públicos para dialogar com os quilombolas (Crédito: Cecília Pederzoli / TJMG)

Poder Público

Participaram representantes do Ministério Público de Minas Gerais; das Defensorias Públicas de Minas Gerais (DPMG) e da União (DPU); do Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra); da Empresa de Assistência Técnica e Extensão Rural de Minas Gerais (Emater-MG); da Companhia Energética de Minas Gerais (Cemig); e de Prefeituras de Diamantina, Datas e Serro.

Também estiveram presentes no encontro representantes do Conselho Municipal de Desenvolvimento Social das Comunidades Quilombolas de Serro (Condesq) e integrantes do grupo Coletivo Quilombos em Ação. “Estamos comprometidos com formas de sobrevivência e de defesa dos nossos territórios. Por isso, viemos aqui contribuir e aprender”, declarou a presidente do Condesq, Luciene Aparecida Campos, que integra a comunidade do Ausente.

As demandas apresentadas pelos quilombolas da Fazenda Santa Cruz e os compromissos assumidos pelas instituições públicas – com prazos definidos para cumprimento –, foram registrados em atas. Como parte do encaminhamento, foram criadas comissões com a participação de moradores.

“Em toda nossa trajetória, acho que é a primeira vez que alguém do Poder Público vem até aqui com a intenção de levar a sério nossas demandas”, afirmou Jordany Silva, que é estudante de Licenciatura em Educação do Campo na Universidade dos Vales do Jequitinhonha e Mucuri (UFVJM).
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"É a primeira vez que alguém do Poder Público vem até aqui com a intenção de levar a sério nossas demandas”, afirmou a líder comunitária Jordany Silva (Crédito: Cecília Pederzoli / TJMG)

Currículo adaptado

A líder comunitária afirmou que se sente privilegiada por ter crescido na Fazenda Santa Cruz e ter chegado à universidade: “Quero que cada vez mais pessoas da comunidade se formem e que daqui a pouco elas estejam representando o Poder Público, igual vocês aqui hoje. É esse o futuro que vejo. Contamos com vocês para que isso seja possível, porque a comunidade, sozinha, não consegue.”

Nesse contexto, a educação é vista como pauta crucial. A quilombola Eliane Aparecida Santos, de 40 anos, custeou a faculdade trabalhando como empregada doméstica em Diamantina. Hoje, depois de se formar, ser aprovada em concurso público e atuar em outras localidades, foi designada para ser a professora da escola que funciona dentro da Fazenda Santa Cruz.

“A discussão sobre o currículo adaptado é muito importante, pois precisamos trabalhar com a realidade de cada comunidade, estudar nossos povos e passar para os alunos os saberes antigos, a nossa história e importância dos nossos ancestrais”, observou a pedagoga, que hoje leciona para 27 crianças de 4 a 10 anos, oriundas de três comunidades tradicionais da região.

Essa percepção foi reforçada por Jordany Silva, que afirmou "ainda estar se encontrando" como quilombola: “Ser quilombola não é um título; é algo que faz parte de mim, e que pode ter ficado adormecido, por causa da colonização, pois demora a gente olhar para dentro. Mas isso está ligado ao que eu sou, às minhas raízes e à minha ancestralidade.”

Por isso, a líder comunitária avaliou que, se os temas relacionados às comunidades remanescentes dos quilombos fossem abordados nas escolas, as crianças quilombolas cresceriam compreendendo esse contexto: “Tenho 27 anos e só fui me entender como quilombola aos 25, porque sempre estudei em escola com estrutura padrão. Passei anos sem entender o dever que eu tinha com meus antepassados de cuidar e olhar para nossa história com atenção.”

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Devota de Nossa Senhora Aparecida, Altiva Vieira, de 89 anos, é hoje uma das matriarcas da comunidade quilombola (Crédito: Cecília Pederzoli / TJMG)

Sabedoria dos antigos

Honrar a memória dos antepassados, perpetuando conhecimentos passados de geração em geração, é parte essencial da identidade dos grupos remanescentes de quilombos. Na Fazenda Santa Cruz, uma das matriarcas detentoras desses saberes é Altiva Vieira, de 89 anos.

Tímida com “os de fora”, de poucas palavras e devota de Nossa Senhora Aparecida, Dona Altiva trabalhou a vida inteira no campo e conhece os palmos daquela terra como poucos. Ao ser questionada sobre o território físico e imaterial que habita, ela resumiu em um sopro de voz: “É linda.”

As lideranças mais jovens, por sua vez, traduzem em mais palavras o sentimento de pertencimento. Jordany Silva disse:

“Para mim, esse território da comunidade é estar em casa. As águas, a terra, tudo aqui tem um significado além do que se vê. Cada ponto traz consigo uma história, uma trajetória de vida, e, às vezes, uma carga de dor e sofrimento por nossos antepassados. O território em si tem vida, é minha casa não apenas como um espaço físico, mas espiritual.”

Na quarta-feira (21/10), a mesma ação de cidadania foi realizada na comunidade quilombola Quartel do Indaiá. Confira a matéria.

Outras imagens podem ser vistas no Flickr oficial do TJMG.

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