Velas, mandalas de crochê, colares, chaveiros, móveis decorativos, artesanatos e outros produtos feitos à mão ocuparam o hall do Edifício-Sede do Tribunal de Justiça de Minas Gerais (TJMG), nesta sexta-feira (11/9). A feira reuniu produtos confeccionados por familiares de integrantes do Instituto Mano Down. No mesmo dia, o projeto "Intervalo Cultural" contou com a apresentação do Coral Voz Ativa, do Instituto Mano Down.
As duas iniciativas, que integram a programação do "Setembro Verde", mês dedicado à conscientização e à valorização da inclusão das pessoas com deficiência, ajudaram a valorizar pessoas que lutam diariamente por autonomia, trabalho, expressão artística e participação social.
A programação contou com a presença de magistrados, servidores, colaboradores e público externo.
Para a diretora executiva de Logística e Sustentabilidade do TJMG, Selmara Fernandes, ações como essas ajudam a ampliar a visibilidade sobre a participação das pessoas com deficiência no cotidiano do Tribunal:
“Esse é o mês de acessibilidade e é importante dar visibilidade, chamar a atenção do público que frequenta o Tribunal para essas pessoas produtivas e que estão inseridas no contexto do Poder Judiciário.”
Trabalho
A presença do Instituto Mano Down no TJMG vai além das atividades realizadas nesta sexta. A parceria integra o programa "Amigo Down", voltado à inclusão de pessoas com síndrome de Down e outras deficiências intelectuais.
Atualmente, 13 pessoas oriundas do convênio firmado com o Instituto Mano Down atuam em seis setores do Tribunal, distribuídos em cinco unidades na Capital: Centro Integrado de Atendimento ao Adolescente Autor de Ato Infracional (CIA-BH), Corregedoria-Geral de Justiça, Fórum Lafayette, Juizado Especial da Unidade Francisco Sales (Jesp UFS) e Edifício-Sede.
A parceria começou em 2023 e, posteriormente, o programa "Amigo Down" foi ampliado por meio de parceria com a Federação das Apaes de Minas Gerais (Feapaes-MG). Atualmente, a iniciativa alcança 23 comarcas do interior do Estado e conta com outros 46 colaboradores com síndrome de Down ou outra deficiência intelectual.
O programa recebeu, em 2024, o reconhecimento do Prêmio Innovare, quando foi vencedor da categoria “Tribunal” na 21ª edição da premiação. O reconhecimento destacou a iniciativa entre projetos voltados ao aprimoramento da Justiça e à transformação social.
Empreendedorismo
Entre os expositores da feira, com produtos confeccionados por familiares de pessoas atendidas pelo instituto, estava Vânia Pereira Ramos, mãe de Daniele, de 47 anos.
Vânia Ramos produz artigos artesanais há muitos anos, incluindo trabalhos com pérolas, colares, mandalas de crochê, chaveiros e peças decorativas:
“Eu adoro fazer trabalhos manuais. Agora eu estou trabalhando com divino, pérolas, colares de mesa com santos, sem santos e muitas outras coisas.”
Além do empreendedorismo, Vânia Ramos destacou como a participação de Daniele nas atividades do instituto interfere positivamente em sua rotina. A filha frequenta o Mano Down há cerca de cinco anos e já passou aproximadamente 18 anos na Apae:
“É muito bom para o desenvolvimento dela, cognitivo, motor, cabeça, tudo. E os profissionais são maravilhosos.”
Ela resume de forma simples o que gostaria que outras pessoas compreendessem sobre as famílias que convivem com pessoas com deficiência: “Outras pessoas ditas 'normais' têm muitas diferenças também. A única coisa que precisam entender é que nós somos todos iguais.”
Música
Enquanto a feira movimentava o hall do Tribunal, o público se reunia para acompanhar o "Intervalo Cultural" com o Coral Voz Ativa, formado por pessoas com deficiência intelectual.
O grupo, que atualmente reúne 18 integrantes, realiza ensaios semanais. O instituto mantém duas turmas: o coral efetivo e os participantes que estão desenvolvendo técnicas básicas para ingressar no grupo.
O produtor cultural do Instituto Mano Down e coordenador do coral, Daniel Lucas Viana, participou da criação do grupo. Segundo ele, a iniciativa nasceu há cerca de cinco anos e meio, após sua aproximação com o instituto: “A gente se inspirou a trabalhar o canto coral com eles porque usa as técnicas de fonoaudiologia de uma forma mais descontraída.”
A escolha do repertório, segundo Daniel Viana, leva em conta a proposta de trabalhar a inclusão por meio da própria linguagem artística:
“A gente pensa muito na questão das letras que a gente tá cantando, o tipo de repertório para comover. E a gente costuma até fazer algumas inserções no texto, adaptando a inclusão junto.”
O repertório apresentado no TJMG reuniu músicas como “A Vida do Viajante”, de Luiz Gonzaga, e “Canção da América”, de Milton Nascimento. O grupo incluiu ainda “Nada Mais Eficiente do que o Amor”, composição de Henrique Dias, pianista que acompanha o coral e que tem deficiência intelectual.
Além de Henrique, também integra o grupo Dudu do Cavaco, que tem síndrome de down. Ele toca cavaquinho e pandeiro e começou a se interessar pela música aos 5 anos de idade.
Para Daniel Viana, a presença do coral no Tribunal representou uma oportunidade de levar o trabalho do grupo a novos públicos: “É um privilégio muito grande porque, além do público interno, também comparecem os que estão passando pela rua e ouvem o coral.”
Entre as pessoas que acompanharam o "Intervalo Cultural" com o Voz Ativa estava Cristiana Werneck, mãe de Marina, de 28 anos, uma das integrantes do grupo. Para ela, ver a filha participar das atividades representa uma forma de exercer autonomia e descobrir diferentes interesses.
Sonho
Para Isabela Pedrosa, de 41 anos, a apresentação no TJMG ressalta sua trajetória de anos no Coral Voz Ativa. Ela contou que já havia se apresentado no Tribunal e que gosta das atividades desenvolvidas nos ensaios: “O nosso ensaio é muito legal. Eu faço um monte de coisas.”
Além de cantar, ela afirmou que gosta de tocar teclado e, ao ser questionada sobre o que gostaria de fazer no futuro, não hesitou: “Meu sonho é ser cantora.”
Setembro
As histórias reunidas no Edifício-Sede durante a feira e o "Intervalo Cultural" fazem parte das ações do "Setembro Verde", campanha realizada pelo TJMG ao longo do mês para conscientizar sobre a inclusão e a valorização das pessoas com deficiência no ambiente de trabalho e na sociedade. No dia 21/9, é celebrado o Dia Nacional de Luta da Pessoa com Deficiência.
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