Aspectos da luta de pessoas escravizadas pela liberdade durante o Brasil Império (1822-1889) são destacados no catálogo "10 anos do Arquivo Permanente do TJMG: catálogo amostral de documentos históricos", produzido pela Coordenação de Arquivo Permanente (Coarpe), vinculada à Diretoria Executiva de Gestão da Informação Documental (Dirged) da Escola Judicial Desembargador Edésio Fernandes (Ejef), do Tribunal de Justiça de Minas Gerais (TJMG).
O documento, lançado neste mês, traz análises de 20 processos que tramitaram entre os séculos XVIII e XIX.
Dívidas bancárias
Historiadores da Coarpe localizaram, em dois desses processos, o testemunho de escravizados em busca de liberdade no século XIX. As peças documentam relações do Banco do Brasil (BB) no sistema escravista e mostram como a instituição financeira aceitava pessoas negras como garantia para execução de dívidas de fazendeiros e comerciantes.
A diretora da Dirged, Simone Meireles, destaca como a preservação de processos dos séculos XVIII e XIX permite pesquisas que consolidam o direito à memória:
"Garantir a preservação e o acesso aos documentos dos séculos XVIII e XIX é uma responsabilidade assumida pelo TJMG para efetivar o direito à memória. Compreendemos que a conservação do acervo e o fomento à pesquisa atuam diretamente na reparação histórica. Isso porque a salvaguarda e o acesso a essa história possibilitam à sociedade compreender o passado de forma crítica, reconhecer as violências do período escravista e repensar caminhos para um futuro de maior equidade."
Sequestro
Em um "sumário de culpa" instaurado em 1871, um encarregado de negócios do BB capturou uma escravizada de 21 anos, identificada como "Maria Crioula", e a colocou sob a guarda de terceiros e do escravizado "José Antônio", também pertencente à instituição financeira. Em resposta, o proprietário da escravizada, Francisco Carlos de Almeida Rosa, acompanhado por comparsas armados, invadiu o local e a sequestrou com a filha recém-nascida. No ataque, José Antônio foi gravemente ferido.
Processado por sequestro e furto, Francisco Carlos justificou sua conduta afirmando que a mulher havia sido levada por "indivíduos assalariados pelo denunciante, empregado do banco, por meras e falsas informações e, sem que fossem acompanhados de um oficial de Justiça, violentamente apoderaram-se da mesma". Ou seja, Maria foi tratada como mera mercadoria pelos dois envolvidos.
"Esse processo evidencia que o escravismo ultrapassou a dimensão meramente econômica. As pessoas trazidas compulsoriamente do continente africano foram submetidas a múltiplas formas de violência e destituídas de quaisquer direitos civis, sociais ou políticos. Sob o arcabouço jurídico da época, a pessoa escravizada era formalmente coisificada, tratada como um bem patrimonial sujeito a herança, penhor e até locação, o que revela a profundidade do enraizamento do racismo na formação da sociedade brasileira", aponta a diretora executiva Simone Meireles.
Leilão de 17 pessoas
Outro processo emblemático diz respeito à ação executória movida pelo Banco do Brasil, em 1883, na Comarca de Cataguases, na Zona da Mata. A peça, julgada pelo antigo Tribunal da Relação de Ouro Preto, narra que 17 pessoas escravizadas foram penhoradas para ir a leilão no contexto de uma cobrança de dívida com a instituição bancária.
Um anúncio de jornal anexado aos autos comprovava o oferecimento de vidas negras a leilão e atestava que sairia vencedor quem oferecesse melhor preço ao juízo. Os autos também trazem avaliação dos "bens" do BB: um escravizado identificado como Benjamin, africano de 60 anos, valia 200 réis; José, de 13 anos, era vendido por 800 réis, enquanto Maria, de 41, estava avaliada em 900 réis.
Esses escravizados solicitaram ao juízo o reconhecimento da alforria com base em cartas de liberdade concedidas por antigos proprietários e obtiveram a liberdade no encerramento do processo.
A historiadora da Coarpe Julia Pazzini, uma das organizadoras do catálogo, sublinha que os arquivos demonstram a resistência da população negra diante da escravidão:
"O processo demonstra que a população negra não atuou apenas como espectadora do processo abolicionista, mas utilizou, dentre outros meios, a agência jurídica. As pessoas escravizadas e libertas conheciam suas garantias legais, articulavam redes de apoio como advogados e abolicionistas para garantir representação legal e recorriam ao próprio Sistema Judiciário da época para fazer valer o seu direito à liberdade."
Sistema escravista
A historiadora destaca o trabalho de localização das peças no arquivo, que comporta 600 mil processos:
"A localização desses processos ocorreu no trabalho cotidiano dos historiadores, que envolve a leitura minuciosa das fontes primárias articuladas com os contextos históricos. A seleção documental, realizada por mim e por André Chaves, partiu de um acervo composto por aproximadamente 600 mil processos cadastrados. Priorizamos a identificação de documentos que extrapolassem a mera ritualidade jurídica, destacando casos excepcionais por sua densidade informacional escrita ou pela singularidade de sua materialidade."
Os casos sinalizam como a abolição não foi acompanhada por políticas de inclusão para os descendentes dos escravizados, com repercussões diretas na sociedade brasileira nos dias de hoje, destaca Julia Pazzini:
"Identificar processos judiciais que envolvem a população escravizada e instituições estruturantes do País revela a profundidade do sistema escravista brasileiro. A análise crítica dessa documentação evidencia que o escravismo esteve intrinsecamente articulado à própria formação do Estado nacional. Além de evidenciar como o trabalho compulsório ergueu as bases econômicas do Brasil. Após a abolição formal, essa população foi desprovida de políticas públicas de inclusão e reparação e negligenciada em relação a direitos fundamentais, como acesso à educação, à saúde e à moradia."
O catálogo "10 anos do Arquivo Permanente do TJMG: catálogo amostral de documentos históricos" está disponível na Biblioteca Digital do TJMG.
Diretoria Executiva de Comunicação – Dircom
Tribunal de Justiça de Minas Gerais – TJMG
(31) 3306-3920
imprensa@tjmg.jus.br
instagram.com/TJMGoficial/
facebook.com/TJMGoficial/
twitter.com/tjmgoficial
flickr.com/tjmg_oficial
tiktok.com/@tjmgoficial