Tribunal de Justiça do Estado de Minas Gerais

Ação de cidadania chega à comunidade Quartel do Indaiá

Quilombolas receberam representantes do Poder Público durante iniciativa da 3ª Vice


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A comunidade Quartel do Indaiá, remanescente de quilombo, está localizada no distrito de São João da Chapada, a cerca de 40 km de Diamantina (Crédito: Cecília Pederzoli / TJMG)
“Eu criei meus cinco filhos aqui, pisando nesta terra. O quilombola é tão importante... A gente tem que preservar nosso território e nossa tradição. Vou atrás de tudo para a comunidade: Deus e eu. Eu não tenho leitura, mas sou ‘andada’ e procuro saber o que está acontecendo e saber os direitos da gente. Tem que unir a comunidade, senão não vai pra frente. Eu sou uma mulher guerreira.”

É com essa fala forjada à resistência que a liderança quilombola Helena Maria Vieira dos Santos, de 57 anos, conhecida como Dona Sineca, contou um pouco das lutas diárias que tem vivenciado em prol de Quartel do Indaiá, à qual pertence. A comunidade está localizada no distrito de São João da Chapada, a cerca de 40 km de Diamantina, na região do Vale do Jequitinhonha.

“Aqui foi escravizado. Gente pegava nosso povo, prendia na corrente e punha na senzala de noite. Até pouco tempo, antes de me entender por gente, eu também era escravizada, pois a gente trabalhava para os vizinhos, para os fazendeiros, e não recebia nada. Trabalhei bastante aqui, a vida toda, e, quando chegava no dia do pagamento, não tinha dinheiro. As terras da minha avó, que também eram aqui neste território, roubaram tudo”, contou Dona Sineca.

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A liderança quilombola Helena Maria Vieira dos Santos, conhecida como Dona Sineca: vida marcada pela resistência (Crédito: Cecília Pederzoli / TJMG)

Escuta ativa

Ela foi uma das pessoas quilombolas que puderam falar sobre as dificuldades enfrentadas por sua comunidade durante uma ação de cidadania e escuta ativa realizada no dia 21/10, em Quartel do Indaiá, pela 3ª Vice-Presidência do Tribunal de Justiça de Minas Gerais (TJMG), por meio do Centro Judiciário de Solução de Conflitos e Cidadania para demandas de Direito relativas a indígenas, quilombolas e demais povos e comunidades tradicionais da Justiça de 1º e 2º Graus (Cejusc Povos e Comunidades Tradicionais) e pelo Cejusc da Comarca de Diamantina, com apoio de parceiros.

Participaram representantes do Ministério Público de Minas Gerais (MPMG); das Defensorias Públicas de Minas Gerais (DPMG) e da União (DPU); do Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra); da Empresa de Assistência Técnica e Extensão Rural de Minas Gerais (Emater-MG); da Companhia Energética de Minas Gerais (Cemig); da Prefeitura de Diamantina; e da Universidade Federal dos Vales do Jequitinhonha e Mucuri (UFVJM).

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Diversas demandas foram apresentadas pelos moradores de Quartel do Indaiá durante o encontro, realizado no dia 21/10 (Crédito: Cecília Pederzoli / TJMG)
“Estamos aqui para mostrar outra vertente do Judiciário: a da cidadania e da mediação na solução de conflitos. Dou decisões judiciais, porque sou magistrada, mas o papel que ocupo hoje é o da resolução de conflitos sem a intervenção de uma decisão imposta pelo Poder Judiciário. Por isso estamos aqui, mostrando esse lado da Justiça que vai além de dar uma sentença e de outra pessoa dizer o que é o seu direito”, destacou a 3ª vice-presidente do TJMG, desembargadora Shirley Fenzi Bertão, na abertura da ação

Superintendente de Tratamento Adequado dos Conflitos de Interesses (Sutrac), a magistrada defendeu a ideia de soluções para os problemas da comunidade construídas pelos próprios quilombolas: “Temos aqui diversos parceiros que têm responsabilidade nas questões que vocês trazem para nós. Escuta é diferente de ouvir, pois é uma atividade ativa. Todos os pedidos serão registrados em ata: o que pode ser resolvido neste momento será resolvido; o que não puder, será encaminhado.”

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Todos os pedidos e problemas apresentados pelos moradores a representantes do Poder Público foram registrados em ata (Crédito: Cecília Pederzoli / TJMG)

Autoridade do povo

O juiz auxiliar da 3ª Vice-Presidência, Matheus Moura Matias Miranda, ressaltou a sacralidade do território que traz a história de um povo: “Esse é um território ancestral e, aqui dentro, o povo é a autoridade. E por que estamos aqui? Porque somos da Justiça e, junto com outros parceiros, queremos construir soluções com vocês para melhorar a vida do povo quilombola de Quartel do Indaiá e região.”

Dirigindo-se aos moradores presentes no encontro, o magistrado salientou que a ação não se tratava de um favor, mas de uma obrigação constitucional: “Carregar o nome da Justiça é algo muito sério. O mundo sem justiça não é um mundo bom. Os ancestrais de vocês não tinham liberdade, eram obrigados a trabalhar, eram violentados pela força física, por chibatadas e violência sexual. É uma história muito triste que precisa ser lembrada para não se repetir e para que haja ressarcimento.”

Ele destacou então que a ação de escuta ativa tinha o sentido de pedir desculpas aos povos quilombolas pelo passado; reconhecer a dívida do Estado brasileiro com a comunidade; e ouvir dos quilombolas como o Judiciário e seus parceiros podem contribuir para diminuir essa dívida.

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A 3ª vice-presidente do TJMG, desembargadora Shirley Fenzi Bertão: “Estamos aqui para mostrar outra vertente do Judiciário” (Crédito: Cecília Pederzoli / TJMG)

Efetividade de direitos

Coordenadora do Cejusc da Comarca de Diamantina, a juíza Letícia Machado Vilhena Dias explicou aos quilombolas que os direitos deles já estão na Constituição Federal, sendo obrigação do Estado concretizá-los: “Sempre digo que, antes de ser juíza, sou uma servidora pública, e a função de um juiz é garantir direitos. O Cejusc é um espaço de cidadania e de diálogo.”

Diversas demandas foram apresentadas pelos moradores de Quartel do Indaiá durante o encontro: fornecimento de energia e água, saúde e educação quilombola, Direito Quilombola e Direito Reparatório, regularização do território, acesso à comunidade, a necessidade de espaço recreativo para as crianças e os problemas com invasores. Foram debatidas ainda as questões do pertencimento à comunidade e do reconhecimento como quilombola.

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À esquerda, o juiz auxiliar da 3ª Vice-Presidência do TJMG, Matheus Moura Matias Miranda, na abertura da ação, ressaltou que o território quilombola é sagrado (Crédito: Cecília Pederzoli / TJMG)

Durante a atividade, os moradores votaram pela complementação do muro que protege o Cemitério dos Escravos de Quartel do Indaiá, bem cultural com significativo valor afetivo para a comunidade. Entre outros temas abordados, figurou a criação de oportunidades de renda e de trabalho para os jovens, que precisam deixar a comunidade para estudar e trabalhar.

“Aqui é lugar bom de viver. O que precisa é um jeito de ganhar dinheiro para sobreviver”, pontuou o quilombola Vital Bispo Pacheco, que afirma ter uns “70 e poucos anos”.

Ele é um dos guardiões de uma das tradições perpetuadas pela comunidade: a folia de reis.

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O quilombola Vital Bispo Pacheco contou que, assim como seus pais, avós e outros antepassados, nasceu e cresceu no Quartel do Indaiá (Crédito: Cecília Pederzoli / TJMG)

No encerramento da escuta ativa, o presidente da Associação Quilombola Zezuína Belaguarda da Comunidade Quartel do Indaiá, Celso Timóteo, declarou, em nome da comunidade:

“Foi muito importante, foi uma honra estar aqui junto de vocês. Eu fico até emocionado. Muito obrigado! Deus abençoe vocês todos! Que Ele dê muita coragem, saúde e resistência para que trabalhem por nós quilombolas!”
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O presidente da Associação Quilombola Zezuína Belaguarda da Comunidade Quartel do Indaiá, Celso Timóteo, ao lado da desembargadora Shirley Fenzi Bertão (Crédito: Cecília Pederzoli / TJMG)

Confira matéria sobre a mesma ação de cidadania realizada na terça-feira (20/10), na comunidade quilombola Fazenda Santa Cruz.

Confira mais fotos no Flickr oficial do TJMG. 

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